Sexta-feira, 29 de Setembro de 2006

Cântico negro - José Régio

 Dita na aula de filosofia para que os alunos, paulatinamente, se entrosem na atitude filosófica. A Filosofia mora próxima da poesia. Porém um abismo as separa.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

publicado por julmar às 11:39
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Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

Resposta à carta a Sofia

  Susana Rocha

Caro Gaarder

Concordo inteiramente consigo. Desde sempre que as questões “Quem somos?” e “Para que vivemos?” me atormentam. O que fazemos neste mundo? Nós somos apenas um entre muitos. Quem se lembrará de nós quando morrermos? Talvez seja por isso que nos casamos. Pois o que é o casamento se não um contrato em que assumimos testemunhar a vida de outra pessoa. Fazemos isso para nos sentirmos menos insignificantes, pois quando nós, e os que nos são próximos, morrermos quem se lembrará de nós? A não ser que tenhamos realizado algum feito digno de memória cairemos em esquecimento, portanto porque é que existimos? Será que o facto de mudarmos a vida de alguém, por mais pequena que seja essa mudança, é razão suficiente para justificar a nossa existência e para nos sentirmos realizados? Há quem pense que sim e há quem pense que não. Há quem se sinta realizado se mudar uma só vida, mas também há quem sonhe mais alto e só se sinta realizado se mudar muitas vidas. Mas porquê esta diferença? O que nos leva novamente à questão “Quem somos?” Somos um organismo vivo, mas também o são o cão, o gato, … O que nos torna diferentes? Serão os pensamentos, os sentimentos? Mas os animais também pensam e sentem, de maneira diferente, mas ainda assim o fazem. Então o que nos torna tão especiais? Na minha opinião, talvez seja a nossa capacidade de imaginar e de sonhar, pois quando perdemos tudo o resto ainda temos os nossos sonhos.

Susana Raquel Ferreira da Rocha  10ºA

publicado por julmar às 08:05
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Segunda-feira, 25 de Setembro de 2006

Viver de Olhos Fechados

 

É propriamente ter os olhos fechados, sem jamais tentar abri-los, viver sem filosofar; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa visão descobre não é comparável à satisfação proporcionada pelo conhecimento daquelas que encontramos por meio da filosofia; e, finalmente, esse estudo é mais necessário para regrar os nossos costumes e conduzir-nos por essa vida do que o uso dos nossos olhos para orientar os nossos passos.
(...) Se desejamos seriamente ocupar-nos com o estudo da filosofia e com a busca de todas as verdades que somos capazes de conhecer, tratemos, em primeiro lugar, de nos libertar dos nossos preconceitos, e estaremos em condições de rejeitar todas as opiniões que outrora recebemos através da nossa crença até que as tenhamos examinado novamente; em seguida, passaremos em revista as noções que estão em nós, e só aceitaremos como verdadeiras as que se apresentarem clara e distintamente ao nosso entendimento.

René Descartes, in 'Princípios da Filosofia'
publicado por julmar às 09:25
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Domingo, 24 de Setembro de 2006

Devemos filosofar?

“Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.”
(Marilena Chaui)
publicado por julmar às 21:28
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Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

Truque

O truque da filosofia é começar por algo tão simples que ninguém ache digno de nota e terminar por algo tão complexo que ninguém entenda. (Bertrand Russel)
publicado por julmar às 14:13
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Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

O Cachorro que (não) somos

Quase todo dia, no caminho do escritório, encontro numa esquina do centro uma porta semi-aberta que mostra meio cachorro. Amarrado numa corrente, ele fica ali, meio fora, meio dentro da casa, nos degraus, farejando a rua, observando os carros e as pessoas que passam. Pelo que consigo perceber, é um vira-lata esperto, talvez sonhando ser um rasga-saco de lixo na liberdade da rua. Acho que ele nunca fez um pipi gostoso, depois de cheirar o poste para demarcar o seu território de machinho. Só ergue a pata traseira no pneu do carro ou numa árvore no quintal. Ou então na desmoralizante caixinha de terra. E o que é pior: nunca "ficou" com uma cadelinha. Talvez a sua visão da vida seja apenas aquela rua, aquela porta, aqueles degraus. No máximo, uma vez e outra, a família o coloca no carro e sai para dar um passeio. Será? A casa é o seu universo, os donos a referência única de convívio. Pode ser que goste de televisão. Aí fica imaginando que existe um mundo misterioso por trás daquela janelinha luminosa que reúne a família. Tenho também o costume de ficar na janela do escritório, que dá visão para o bulevar Barão e a rua XV. As pessoas que passsam devem pensar: quem é aquele sujeito lá em cima, com a mão no queixo, olhando para o movimento como a procurar alguém ou algo especial? Devem achar que não tenho o que fazer, que sou um sapo bem-te-vi fofocante. Alguém amarrado a uma cordinha psicológica exercitando a imaginação a partir dos limites de sua janela, tendo, portanto, uma visão bem parcial da realidade. Esse estranho início de crônica me leva ao "Mito da Caverna", de Platão. Alguém na caverna, apenas iluminada por tochas, que projetam nas paredes as sombras daqueles que vez ou outra entram nela. Para o solitário habitante, o mundo é feito de silhuetas, estranhas formas indefinidas em movimento. Na sua compreensão, a realidade é apenas aquilo, preso que está ao que vê, condicionado pelo lusco-fusco da caverna, iludido de que as sombras são a verdade verdadeira. Se um dia ele sair do subterrâneo, vai ficar deslumbrado pelas cores, pelas formas, pelas vidas à luz do dia de um mundo inimaginável. E nem por isso essa nova realidade representa o todo, trata-se apenas de uma "sombra" diante do universo de possibilidades, dos mistérios da existência.. É isso. Vivemos presos às coisas do cotidiano, curtindo as sombras como se dominássemos a verdade mais profunda. Tomamos a aparência pela essência. Sem percebermos que tudo na vida depende do ponto de vista. Do onde estamos para o resto. De observador para observado. Do ângulo da visão à compreensão do todo. E vice-versa. Achamos que o horizonte da janela é o limite máximo, neste jogo de espelhos de vaidades e pretensões. Existem camadas de compreensão que se sobrepõem umas às outras, numa visão cada vez mais profunda da verdade na busca da perfeição e do conhecimento maior. Assim, o que achamos um grande problema, quase nada significa no enquadramento de uma estrutura maior de análise dos fatos. Somos todos um pouco aquele cachorrinho farejando a rua numa esquina do centro, na caverna dos novos tempos. Dá para descobrir o universo pelo grão de areia. Desde que saibamos olhar este grão pela lente de aumento da vida como um todo, que não se esgota em nossa pretensa sabedoria, em nossa vã filosofia. Pense nisso, cachorrão!

 (De um site de que se não registou o endereço)

publicado por julmar às 09:12
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Sábado, 9 de Setembro de 2006

CARTA A UM(A) APRENDIZ DE FILÓSOF0(A)

Cara Sofia!

  Há muitas pessoas que têm diversos hobbys. Algumas coleccionam moedas antigas ou selos, outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam quase todo o tempo livre a uma modalidade desportiva.

  Muitos gostam de ler. Mas aquilo que lemos pode variar muito. Há quem leia apenas jornais ou banda desenhada, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre os mais variados temas como a astronomia, a vida selvagem ou as descobertas técnicas.

  Se estou interessado em cavalos ou pedras preciosas, não posso exigir que todos os outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente à televisão, encantado com todos os programas desportivos, tenho de aceitar que outros possam achar o desporto aborrecido.

  Haverá alguma coisa que interessa a toda a gente? Haverá alguma coisa que diga respeito a todas as pessoas, independendentemente do que são e do sítio do mundo em que vivem? Sim, cara Sofia, há questões que dizem respeito a todos os homens. E neste curso trata-se precisamente dessas quest~oes.

  Qual a coisa mais importante da vida? Se o perguntarmos a alguém num país com o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos esta questão a alguémque esteja com frio, nesse caso a resposta é: o calor. E se perguntarmos a uma pessoa que se sinta muito sozinha, a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.

  Mas, admitindo que todas estas necessidades estão satisfeitas – será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo eles, o homem não vive só de pão. É evidente que todos os homens precisam de comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais do que todos os homens precisam. Precisam de descobrir quem somos e porque é que vivemos.

  Interessarmo-nos pela razão da nossa existência não é um interesse ocasional, como o interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por tais problemas preocupa-se com tudo aquilo que os homes discutem desde que apareceram neste planeta. A questão acerca da origem do universo, do globo terrestre e da vida, é mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.

G. Gardner, O Mundo de Sofia

publicado por julmar às 21:54
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