Sexta-feira, 15 de Setembro de 2006

O Cachorro que (não) somos

Quase todo dia, no caminho do escritório, encontro numa esquina do centro uma porta semi-aberta que mostra meio cachorro. Amarrado numa corrente, ele fica ali, meio fora, meio dentro da casa, nos degraus, farejando a rua, observando os carros e as pessoas que passam. Pelo que consigo perceber, é um vira-lata esperto, talvez sonhando ser um rasga-saco de lixo na liberdade da rua. Acho que ele nunca fez um pipi gostoso, depois de cheirar o poste para demarcar o seu território de machinho. Só ergue a pata traseira no pneu do carro ou numa árvore no quintal. Ou então na desmoralizante caixinha de terra. E o que é pior: nunca "ficou" com uma cadelinha. Talvez a sua visão da vida seja apenas aquela rua, aquela porta, aqueles degraus. No máximo, uma vez e outra, a família o coloca no carro e sai para dar um passeio. Será? A casa é o seu universo, os donos a referência única de convívio. Pode ser que goste de televisão. Aí fica imaginando que existe um mundo misterioso por trás daquela janelinha luminosa que reúne a família. Tenho também o costume de ficar na janela do escritório, que dá visão para o bulevar Barão e a rua XV. As pessoas que passsam devem pensar: quem é aquele sujeito lá em cima, com a mão no queixo, olhando para o movimento como a procurar alguém ou algo especial? Devem achar que não tenho o que fazer, que sou um sapo bem-te-vi fofocante. Alguém amarrado a uma cordinha psicológica exercitando a imaginação a partir dos limites de sua janela, tendo, portanto, uma visão bem parcial da realidade. Esse estranho início de crônica me leva ao "Mito da Caverna", de Platão. Alguém na caverna, apenas iluminada por tochas, que projetam nas paredes as sombras daqueles que vez ou outra entram nela. Para o solitário habitante, o mundo é feito de silhuetas, estranhas formas indefinidas em movimento. Na sua compreensão, a realidade é apenas aquilo, preso que está ao que vê, condicionado pelo lusco-fusco da caverna, iludido de que as sombras são a verdade verdadeira. Se um dia ele sair do subterrâneo, vai ficar deslumbrado pelas cores, pelas formas, pelas vidas à luz do dia de um mundo inimaginável. E nem por isso essa nova realidade representa o todo, trata-se apenas de uma "sombra" diante do universo de possibilidades, dos mistérios da existência.. É isso. Vivemos presos às coisas do cotidiano, curtindo as sombras como se dominássemos a verdade mais profunda. Tomamos a aparência pela essência. Sem percebermos que tudo na vida depende do ponto de vista. Do onde estamos para o resto. De observador para observado. Do ângulo da visão à compreensão do todo. E vice-versa. Achamos que o horizonte da janela é o limite máximo, neste jogo de espelhos de vaidades e pretensões. Existem camadas de compreensão que se sobrepõem umas às outras, numa visão cada vez mais profunda da verdade na busca da perfeição e do conhecimento maior. Assim, o que achamos um grande problema, quase nada significa no enquadramento de uma estrutura maior de análise dos fatos. Somos todos um pouco aquele cachorrinho farejando a rua numa esquina do centro, na caverna dos novos tempos. Dá para descobrir o universo pelo grão de areia. Desde que saibamos olhar este grão pela lente de aumento da vida como um todo, que não se esgota em nossa pretensa sabedoria, em nossa vã filosofia. Pense nisso, cachorrão!

 (De um site de que se não registou o endereço)

publicado por julmar às 09:12
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